Me chamo Roberto Struan. Já fui editor e roteirista da HQ do Castelo Rá-Tim-Bum. Hoje trabalho como escritor e designer gráfico, atuando também como animador. Sou o autor, juntamente com Machado de Assis, do livro: “O Alienista e o Fantasma de Jing Ru”. (robertostruan@gmail.com) “O Alienista e o Fantasma de Jing Ru” é o primeiro “mash-up novels” lançando no Brasil. Para quem não está familiarizado com o termo, “mash-up novels” é o apelido de um novo gênero literário que significa “romances misturados”, no caso, seria a adição de textos novos a uma obra clássica de domínio publico, recriando-a. “O Alienista e o Fantasma de Jing Ru”conta a historia do Dr. Simão Bacamarte, médico conceituado em Portugal e nas Espanhas, descobre que o planeta Terra está na eminência de ser invadido por uma horda de espíritos alienígenas chamados Esparnos. O instrumento utilizado pelo alienista para salvar a humanidade, é a criação de um manicômio batizado de Casa Verde. Um romance inusitado onde mistério e humor se casam deliciosamente. Segue abaixo o primeiro capitulo intitulado: “DE COMO ITAGUAÍ GANHOU UMA CASA DE ORATES”. CAPÍTULO PRIMEIRODE COMO ITAGUAÍ GANHOU UMA CASA DE ORATES As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el‑rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia. Louco, tonto, demente... Foram parte dos adjetivos espocados por toda gente, sabedora da novidade do retorno do Dr. Simão Bacamarte, à colônia Lusitânia. É lógico que tais adjetivações, ficaram circunscritas as camadas inconfessáveis dos pensamentos, pois, quem teria o despautério de dizê-las nas fuças do laureado medico? Como compreender a idéia estapafúrdia do sábio que, de uma hora para outra, resolveu dar as costas ao império, para se embrenhar num latifúndio mal ajambrado, num continente longínquo, localizado do outro lado do oceano Atlântico? A simples menção do nome “Itaguaí” provocava na nobreza, questionamento tais: “O que é?” “É bicho feroz?” “É alguma comida exótica cozida por selvagens?” Se a decisão tresloucada do afamado douto assombrou, espanto maior sucumbiria toda coletividade acadêmica, se soubessem da verdade sinistra escondida por trás da temerária deliberação. Os fatos anteriores à incompreensível sentença, é por demais prosaico. Num dia que não desejo datar cronologicamente, me reservando no direito de omitir hora, dia, mês e ano... Numa manhã chuvosa, o honorável médico saiu de casa rumo à livraria mais próxima. Tinha em mente comprar certo volume... Sabia, sem saber, o titulo do compêndio e o nome do autor. Até esse instante parecerá a quem desaba a visão nesse texto, que nada demais esta sendo narrado nessa crônica, porem, pergunto: Qual será o teu juízo se disser que, o Dr. Simão Bacamarte, comprou um livro da qual nunca ouvira falar, de um autor que mal sabia existir? Assombrado? Bestificado? Duvidoso? O livro em questão, envolto em brumas de desconfiança e curiosidade se chamava: “Livro dos Espíritos” de Allan Kardec. Quem? Para quem não sabe, vamos aos fatos. Allan Kardec é o pseudônimo de Hippolyte Léon Devizard Rivail, matemático e pedagogo que, apesar de nutrir profundo interesse por física, lá pelas tantas de uma vida de elevado estudo, chafurdou na obscuridade dos lodos fantasmagóricos, notabilizando-se por ser o decodificador da doutrina espírita. A pergunta incomodativa, tal qual pulga estrebuchando nas teias dos neurônios é, como o Dr. Simão Bacamarte veio a se enredar num terreno conceitual tão movediço? De posse do até então risível e obscuro “Livro dos Espíritos”, o Dr. Simão Bacamarte enfurnou-se em seu quarto por um período contado com exatidão de sete dias, quinze horas e vinte cinco minutos, desprezando os segundos... Dona Coralina, governanta da casa, estranhou o comportamento recluso do patrão. O homem trancou a porta a chave e não a abria nem para receber as bandejas com refeições. Deixe a comida ao sopé da porta! Ordenava num tom de voz a cada dia mais beligerante. O Dr. Simão Bacamarte embrenhou-se na mata espinhosa dos códigos de uma doutrina, que voltava seus estudos ao sobrenatural. Apesar da descrença corrosiva que latejava as idéias, o afamado médico perdeu a conta das vezes que leu o “Livro dos Espíritos”. Por vezes era fisgado por uma passagem que lhe consumia horas de analises. Vagou por filigranas de conceitos perturbadores, que davam respostas para existências de almas penadas, encostos, bichos papões, anjos, demônios chifrudos com patas de cabritos e rabos pontudos, assomando uma vasta fauna de entidades viventes em mundos extraterrestres. Ao fim de uma semana de estudos vociferantes, esgotado, a mente sufragada por turbilhões de duvidas e incertezas, o Dr. Simão Bacamarte se entregou nos braços de Morfeu. Desabou num sono profundo que o fez hibernar por três dias, ininterruptos. Dona Coralina só não chegou a entrar em desespero por ser possuidora de bom ouvido. Com uma das orelhas colada à porta, pode ouvir em alto e bom som o ronco cavernoso expirado por seu chefe. Concluiu pratica: “Se esta a roncar, morto não esta! O jeito é relaxar!” Durante o sono profícuo, o Dr. Simão Bacamarte teve uma experiência que mudou para sempre o rumo de sua existência. Foi mergulhando nas profundezas das águas oníricas que, não mais que de repente, deparou-se o homem com uma figura luminosa. Uma criatura com feições orientais. Bigodes brancos delgados escorriam das narinas roçando o chão. A barbicha cultivada no queixo, acompanhava a extensão tombada, exagerada, dos bigodes. Disse o ser translucido chamar-se Jing Ru, de nacionalidade chinesa em sua ultima passagem pela vida terrena, hoje habitante dos planos espirituais. Confessou ter sido mestre de Confúcio, informação que deu parâmetros ao sonhador de tentar calcular a longevidade de seu interlocutor fantasmagórico. Astuto, o médico perguntou: ― Por que, o honorável mestre Jing Ru, me inspirou a comprar o “Livro dos Espíritos” do Allan Kardec? ― É um homem possuidor de uma inteligência vivaz. Desejo explanar minha grande admiração e respeito por sua pessoa. A ciência é o sustentáculo do farol do juízo pela qual vislumbra o mundo. Pergunto-lhe, humildemente: “Como poderia surgir imaterial diante de vossa eminência num sonho, se não tivesse cultivado em seu espírito, a centelha da lógica existencial de outros mundos, alem do terreno?” Peço que me perdoe pelo infame ardil, de influenciá-lo a entrar e contato com uma obra a qual desconhecia. O uso de tal estratagema foi no intuito de torná-lo apto a compreender minha aparição. A semana decorrida de estudo involuntário, o armou de subsídios para, daqui por diante, não mais estranhar o surgimento de aparições, vulgarmente chamadas de fantasmas, assombrações, anjos da guarda, elementares dos mais diversos como fadas, gnomos e até mesmo as salamandras, artífices do fogo. Não negara minha existência, muito menos ira desprezar a mensagem do além da qual sou portador. ― E qual recado imperioso me é destinado? ― Abandone a Europa e vá estabelecer residência na cidade de Itaguaí. ― Porque devo fazê-lo? ― Motivo de grande importância que, nesse instante, não deve ser revelado. Peço que confie nos desígnios das forças inteligentes que arbitram a existência dos seres viventes, zelando por nossa segurança além lar. Não alongando um contato que deve ser breve, lhe deixo uma ultima palavra, ficarei ausente pelos anos que se seguiram. De sua conduta, esperarei que siga teus instintos. Há de amadurecer nas intenções e nos talentos. Quando estiverem encaminhadas as diretrizes do teu rumo profissional, voltarei a ter contigo para revelar, o plano celestial que lhe foi conferido. Fique na paz de Deus. Após ter tido um sonho profético a qual o Dr. Simão Bacamarte deu amplo credito, não tardou a postar-se diante de El-rei de Portugal para, revelar-lhe, os planos de retorno ao Brasil. Diante do assombro do monarca que o tinha em alta estima, justificou: — A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. Dito isso, meteu‑se em Itaguaí, e entregou‑se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou‑se de semelhante escolha e disse‑lho. Simão Bacamarte explicou‑lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar‑lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, — únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá‑lo, agradecia‑o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte. D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, — explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes. Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, — o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir‑se de "louros imarcescíveis", — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores. — A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico. — Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais. A escolha de uma nova disciplina cientifica como alvo, transformou-se para o Dr. Simão Bacamarte, na aquisição de uma chave metafórica a abrir uma porta a anos lacrada, soterrada pelo pó de lembranças arcaicas. Instalada na mente do médico a certeza do rumo profissional a ser seguido, logo na primeira noite após o vaticínio, eis que surge envolto nas brumas de um sonho, o espírito do mestre Jing Ru. Diante da impoluta luminosidade do professor de Confúcio, o futuro alienista se assombrou. Foi acometido de profunda incerteza. ― Revê-lo escancara um erro ou acerto por mim praticado? ― Suas ações desfraldadas ao longo da vida, que para tu que as vivencia nada mais são que perpetuas novidades, já para o panteão de sábios que orbitam o criador, teu futuro é deveras conhecido. Não posso, como mensageiro celestial, esgarçar um destino que cabe a ti glorificar. Nesse instante, ofereceu-me uma misera fresta, para que possa adentrar meus conselhos. ― O que espera de mim mestre? ― Ira capitanear a construção da Casa Verde. O edifício hospitalar abrigara todos os doentes mentais existentes na cidade, como nas circunvizinhas. Dentre os cômodos a serem construídos, a um deve dedicar especial interesse. No subsolo do prédio edificara um Salão Oval onde será pendurado nas paredes, sete grandes quadros de mais de um metro e meio de altura, por um metro de comprimento cada um. Os motivos das pinturas segue teu critério. Prudente seria que fossem retratos de santos ou, até mesmo, um do sumo pontífice. Essas são minhas recomendações. ― O porquê de uma sala oval subterrânea? Porque ornar-se as paredes com sete obras de arte sacras? ― Por hora nada mais deve ser dito. Fique na paz do Senhor. Continua...
Escrito por robertostruan às 18h47
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Continuação... A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é argüida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico. — Olhe, D. Evarista, disse‑lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo. D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido, disse‑lhe "que estava com desejos", um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redargüiu‑lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu‑a com tanta eloqüência, que a maioria resolveu autorizá‑lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá‑la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou‑se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo‑se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu‑se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil. — Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa? Enganava‑se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo, tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu‑lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente. A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou‑se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestira‑se luxuosamente, cobriu‑se de jóias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá‑la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto, — e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, — porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores. Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí, tinha finalmente uma casa de orates, como tinha também uma historia bizarra que só não se firmou no anedotário popular da cidade, pois foi narrada por Aldo Babuíno. Aldo Babuíno que, em sua condição de normalidade, estava perpetuamente semi-ébrio, deve a derrocada de sua existência a uma desilusão amorosa. Outrora noivo de Genoveva, moça simples e sonhadora que, a poucos dias do casório, se deixou levar pela prosa insinuante de um caixeiro viajante. Largou tudo e partiu com a roupa do corpo, em companhia do mascate galanteador, deixando o escriturário da prefeitura, enforcado nas cordas da desilusão. Hoje é comum vê-lo nas madrugadas embriagado, segurando uma lanterna, procurando a avulsa paixão por ruas e vielas, na vã esperança de encontrá-la arrependida, suplicando perdão. Para espanto do consorte largado, deparou-se o pobre com o Dr. Simão Bacamarte vestido de pijama, caminhando em direção a Casa Verde, segurando alem de uma lamparina numa das mãos, noutra, uma lata de tinta, um dia após os festejos da inauguração do hospício. A reação do desiludido foi o de reverenciar o adulado médico, mas o doutor não lhe deu vistas. Indignado, o embriagado cidadão limitou-se a dar mais um gole da garrafa de cachaça. A história desatinada chegou a ser contata para um ou outro gaiato, sem que fosse levada a serio. Tivesse dito ter visto o Saci-Pererê, a Caipora ou a Mula Sem Cabeça, teria tido mais credito. Ninguém mais viu o Dr. Simão Bacamarte adentrar no manicômio recém implantado. Muito menos o viram descer as escadarias que levavam ao Salão Oval, baixar os quadros de grandes eminências da cristandade e, de posse de um pincel, pintar grafismos ininteligíveis que mais pareciam garatujas, nos espaços de parede reservados as pinturas. Finda a tarefa, após súbito estrebuchar, o alienista despertou do transe e, abobadou ao flagrar-se em trajes íntimos, longe de sua alcova. O incomodo, no entanto, foi breve. Foi esquecido quando do surgimento do fantasma do mestre Jing Ru, não mais confinado da seara dos sonhos. ― Me desculpe duas vezes. A primeira por ter possuído teu corpo para uma finalidade que, daqui a instantes, irei revelar-lhe. A segunda, por tê-lo feito sair de casa vestido em trajes sumários. A nobreza da causa suplanta os bons modos e o decoro. ― Porque o fizeste o honorável mestre? ― Era necessário grafar nas paredes os símbolos de um sortilégio. Por mais que explicasse como deveria fazê-lo, seria traído pela inabilidade. ― Porque grafá-los nos espaços destinados aos quadros? ― Para que as obras com motivos sacros os cubram. Como explicar aos sacerdotes como a todos aqueles tementes a Deus, uma sala pichada com símbolos pagãos, invocadores de forças ocultas aos homens, somente compreensíveis as almas divinas? ― No que se constituirá o Salão Oval? ― A partir desse instante o Salão Oval, secretamente, será chamada de Salão do Exorcismo Sideral. ― De médico sacramentado serei reduzido a um mero pajé? Indignou-se o doutor. ― Nenhuma tarefa lhe será imposta. Que a verdade seja imperiosa. Prepare-se para ouvir a revelação de um plano nefasto que fará sucumbir, tudo o que há de civilizado nesse vasto mundo. Num planeta de nome Mistiner, localizado a uma distância que supera e muito a lonjura entre o Sol e Júpiter, dentre os muitos povos que nele habitaram, um outorgou-se mais valoroso que os demais. O nome desse povo belicoso e irascível era Esparnos. Os esparnianos ambicionaram suplantar as demais nações em força e poder. Em função de um sonho imperialista que intimidaria os delírios de Alexandre o grande e Napoleão Bonaparte, armaram-se de artefatos sanguinolentos e marcharam rumo a conquista. Dentre todas as armas que possuíam, a mais letal e inusitada constituía-se numa magia alienígena, engendrada por uma alcatéia de bruxos, que conseguiu a proeza nefanda de, fazer com que os espíritos de seus guerreiros tombados nos fronts da intolerância, pudessem possuir os corpos dos adversários escravizados. Grande troféu de perpetuação imortal, mas que alem da gloria da vaidade continha em si, o vírus de uma maldição. O espírito replantado em novo corpo era estéril. Infértil. Apto para copula, dos coitos, no entanto, não germinaria descendentes, não brotaria filhos. Um detalhe desprezado a não representar, num primeiro momento, esmorecimento nas ambições dos esparnianos. Porém, conforme os milênios foram transcorrendo, a paga da eternidade transviada cobrou um alto soldo. A população dotada de razão do planeta se extinguiu, não restando a essa nação de celerados, nenhuma alternativa que não fosse a de possuir os corpos dos bichos da terra. Até a fauna não resistiu à sanha de uma espiritualidade vampiresca, sendo, por fim, totalmente aniquilada. O que restou da magnificência de outrora, foi o vazio de uma vida inorgânica. O planeta Mistiner viu-se povoado por uma horda de fantasmas errantes, habitando no Olimpo de sua insensatez. ― Os espíritos dos esparnianos cobiçam os corpos dos seres humanos? Conjeturou o laureado médico. ― Tua perspicácia só não me assombra por conhecê-la na raiz. Os fantasmas dos possessos já estão entre os nativos de Itaguaí, operando sua infâmia. ― Não creio. Gemeu Simão Bacamarte desacorçoado. ― Afugente o desanimo, pois a nobreza das santidades conta com tua sapiência, para rechaçar a invasão alienígena fantasmagórica, que está em curso. ― Eu? Indagou o doutor logrado. O que um pobre médico pode fazer contra uma nação que domina a arte da guerra? ― Os esparnianos necessitam de corpos para arrotarem sua fúria. Se o combate se apresenta no cerne, ou seja, se o esforço da retórica se der no impedimento da possessão dos organismos dos homens, frustraremos os planos dessa malta de vis conquistadores extraterrestres. Sem corpos, não haverá submissão. ― Qual a relação da invasão alienígena com a disciplina da patologia cerebral? ― A iniciativa de um espírito esparniano de possessão do físico de um ser humano, não se dá sem que haja um embate psíquico. Mesmo na ignorância do processo de ocupação, o organismo vitimado, instintivamente, se põe em estado de alerta e reage a hostilidade. O conflito interno travado, altera o comportamento da pessoa que, aos olhos de toda a gente... O Dr. Simão Bacamarte, com um sorriso nos lábios, interrompeu as deliberações do fantasma do mestre Jing Ru. ― Mudança de comportamento que se assemelhara aos sinais exteriores de demência. Concluiu triunfal o alienista. ― Exatamente! Cabendo a ti, munido de seu vasto cabedal psicopatológico, identificar os enlouquecidos que, nada mais são do que infelizes que tiveram o infortúnio, de serem contaminados por espíritos opressores extraterrestres, vorazes em apossar-lhes os juízos. Diagnosticados os possessos, basta trancafiá-los na Casa Verde. ― E como devo proceder para exorcizar os enfermos das assombrações parasitas? ― Esse é outro capitulo que deve ser deixado para mais tarde. Tua missão primeira é: Afinar o olhar e separar o joio do trigo. Diferenciar o normal do demente e, recolher todo aquele que julgares estar sendo alvo da sanha de uma alma penada esparniana. Uma vez recluso o condenado, posteriormente, lhe munirei de ferramentas para que vossa iminência possa libertá-lo. E foi assim que um homem de saúde transformou-se num baluarte da humanidade, bastião de resistência contra as forças tirânicas, extraterrestres.
Escrito por robertostruan às 10h23
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